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O poder da Meta. Até na Saúde!

há 2 minutos
5 min de leitura

Uma reflexão sobre as regras que limitam o alcance de quem analisa políticas de saúde sem fazer campanha, e o resumo do que levo ao debate sobre Lula e Flávio.


Escrevo este texto com uma frustração que vale registrar. Há tempos, os conteúdos do Portal JS esbarram numa barreira de divulgação: a plataforma enquadra o que escrevo como tema social ou político e restringe o alcance.


Agora, ao tentar divulgar a minha participação no Café Amargo, aconteceu de novo. Não escrevo para acusar ninguém de má-fé, mas para falar de um efeito que me parece real e que merece ser discutido com franqueza.


O que as regras dizem, de fato


É justo começar pelos fatos. Desde 2022, a Meta exige autorização do anunciante e o rótulo “Pago por” para anúncios sobre temas sociais, e a lista da própria empresa inclui expressamente saúde e educação. Nas eleições de 2026, a Meta informa que suspendeu temporariamente a criação, a edição e a veiculação de todos os anúncios sobre temas sociais, eleições ou política direcionados ao Brasil.


Na sexta-feira (16), o TSE confirmou por unanimidade uma decisão que vale até o fim do segundo turno, em 25 de outubro. A Meta não pode restringir o alcance do conteúdo político-eleitoral de nenhuma das duas candidaturas, e deve suspender anúncios eleitorais pagos por quem não pode contratá-los, em especial a partir de contas no exterior. Ou seja, a regra não é dirigida a mim. Vale para todos, e há motivos para ela existir.


O que me entristece


Transparência em publicidade política é necessária. O que me entristece é o desenho: a regra classifica pelo tema, e não pela intenção. No mesmo balaio entram a campanha que pede voto e a análise de quem apenas explica o que cada lado prometeu, cumpriu e falhou. Quem informa sem pedir voto fica com o alcance orgânico, que depende de um algoritmo que ninguém vê, enquanto, segundo a própria Justiça Eleitoral, há anúncios pagos que contornam as regras a partir do exterior.


Reconheço que a plataforma é privada e que ninguém é obrigado a usá-la. Mas hoje a rede é a praça pública, e o debate sobre saúde, que decide quem consegue ou não ser atendido, passa por filtros que nenhum de nós escolheu. Não peço exceção. Peço três coisas simples: critérios claros, um canal de recurso com revisão humana e uma distinção real entre informar e fazer campanha.


Quando a praça é privada, o debate público sobre saúde também depende de regras que a maioria não escolheu. O mínimo que se pede é que sejam claras e revisáveis.


O que levo ao debate: prometeu, cumpriu, falhou, promete


Como o espaço aqui é meu, faço o que a regra do Meta não me deixa fazer: informo, com fatos e fontes, sem pedir voto. O resumo abaixo trata os dois lados com o mesmo critério.


Filas e acesso. O governo Lula prometeu zerar as filas criadas na pandemia. O Agora Tem Especialistas fez cerca de 15 milhões de cirurgias em 2025 (dado do governo), mas o g1 considerou a promessa cumprida apenas em parte, e o TCU apontou desaceleração. Flávio propõe o Brasil sem Fila, com IA para agendar na primeira vaga e uso da rede privada em horários ociosos. Lula promete expandir o programa e criar a fila única digital por risco clínico.


Médicos e remédios. O governo Bolsonaro reformulou o Mais Médicos, mas o programa substituto, segundo o Estadão em 2020, não emplacou. O governo Lula retomou o Mais Médicos (de 13,7 mil para 27,3 mil profissionais) e ampliou a Farmácia Popular (27 milhões de pessoas, 41 itens gratuitos). Flávio promete ampliar a Saúde da Família e entregar remédio em domicílio, e nas seções de saúde do plano não cita a Farmácia Popular. Lula promete mantê-la 100% gratuita, com exames de crônicos.


Dinheiro do SUS. O plano de 2018 de Bolsonaro dizia que o SUS não precisava de mais recursos, e o piso federal caiu de 15,77% para 13,54% da receita corrente líquida entre 2017 e 2019, sob a EC 95, aprovada no governo Temer. O governo Lula restabeleceu os pisos e o orçamento passou de R$ 246,5 bi para R$ 271,3 bi, mas cerca de 10% do orçamento da pasta vai para emendas parlamentares. Flávio promete garantir as condições para corrigir a tabela SUS, sem indicar a fonte. Lula promete manter o arcabouço e enfrentar o sistema de emendas.


Vacinas e Covid. O governo Bolsonaro informa ter destinado R$ 38 bi a 650 milhões de doses, mas o país teve cerca de 700 mil mortes por Covid, a CPI da Covid criticou a compra de vacinas (o campo bolsonarista contesta) e o sarampo perdeu a certificação em 2019. O governo Lula recuperou a certificação em 2024, mas a segunda dose da tríplice viral ficou em 78% em 2025. Flávio promete manter a imunização e incentivar a produção nacional de vacinas; Lula, ampliar a vacinação nas escolas.


Prontuário e IA. Bolsonaro prometeu o prontuário nacional, entregou o Conecte SUS e não concluiu, e o plano de Flávio diz que agora vai concluí-lo. Lula promete consolidar o prontuário único e usar IA em triagem e regulação por risco clínico. Nenhum dos dois programas menciona garantir o atendimento humano diante da IA.


Planos de saúde e ANS. Aqui está o silêncio mais importante: nenhum dos dois programas trata de planos de saúde, ANS, reajuste dos planos coletivos, judicialização ou ressarcimento ao SUS. No histórico, o governo Bolsonaro sancionou as leis 14.307/22 e 14.454/22 e o Decreto do SAC, e vetou os oncológicos orais domiciliares. O governo Lula criou um regime sancionador, mas a cautelar sobre 947 mil contratos foi suspensa em 24 horas, o processo da Senacon contra 17 operadoras foi suspenso em dezembro de 2024 sem decisão final localizada, e o monitoramento da garantia de atendimento está sendo flexibilizado. Flávio propõe agências reguladoras com critérios técnicos para dirigentes (esse talvez seja o único item que pode mexer no ponteiro do jogo da saúde suplementar).


A PERGUNTA: seja qual for o resultado de 25 de outubro, a pauta de quem paga plano de saúde, com reajustes sem teto nos coletivos, judicialização em alta e atendimento cada vez menos humano, segue sem dono nos programas. A pergunta que levo ao debate é simples: o que cada lado muda, de concreto, para esse consumidor?


Onde assistir


A rede pode limitar o impulsionamento, mas não a conversa. Assista à minha participação no Café Amargo, com o debate completo:



Fontes: programas de governo registrados no TSE; g1/Promessas dos Políticos (jun./2026); Metrópoles (12/2021); Agência Brasil (2018); Meta (Nosso trabalho para proteger as eleições de 2026 no Brasil, atualizado em 5/10/2026); TSE, decisão de 16/10/2026; Futuro da Saúde; MJSP/Senacon; Lei 13.848/19. Dados até 17/10/2026.

 
 
 

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