A "conversinha" da sustentabilidade dos planos

Depois de décadas defendendo a sustentabilidade do sistema, constato que o desequilíbrio quem paga é o paciente. Este é o novo momento do Portal JS.
Hoje vou trazer um olhar diferente, sobre a péssima qualidade dos serviços dos planos de saúde e as manobras para esconder isso.
Mas, antes de qualquer coisa, devo desculpas a você, leitor. Fiquei ausente do Portal JS por mais tempo do que gostaria, e o silêncio tem explicação: atravessei um período de reflexão profunda, marcado pelo desânimo mais intenso e pela desilusão mais clara que já me abateram. Perdi a esperança em um sistema que se possa equilibrar e sustentar, porque percebi que essa promessa não passa de conversa fiada das operadoras para frear o ímpeto das iniciativas contra elas. Acordei. Estou de volta, com novo ânimo e com um novo olhar.
Então, vamos lá!
O sistema é ruim, e as operadoras o travam
Passei muitos anos defendendo o equilíbrio. Hoje enxergo, com clareza, o enorme desequilíbrio que recai sobre o lado mais frágil da relação: o consumidor. Talvez a culpa não seja integral das operadoras, porque o sistema, como foi desenhado, é ruim. Mas elas também travam a política de saúde do país em seu favor e, por isso, são culpadas na origem. Sem solução na regulação, o Judiciário é chamado a intervir, e um sistema que já não funcionava vira uma bagunça.
Ainda sendo uma intervenção atabalhoada, salva muitos pacientes das garras de operadoras que negam para economizar, que expulsam usuários, que praticam reajuste indevido, que celebram contratos falsos coletivos, que surgem como salvação e se tornam insolventes em poucos meses. Os números ajudam a medir o tamanho do problema.
1. O consumidor bate à porta da Justiça, cada vez mais
Segundo o CNJ, foram 219 mil novas ações contra planos de saúde em 2023, 30% a mais que no ano anterior. Em 2024, quase 300 mil. Até junho de 2026, já são 181 mil, e a saúde suplementar superou o SUS em novos processos. Só as ações sobre reajuste saltaram de 19.328 em 2020 para 61.475 em 2025, uma alta de 218% em cinco anos.
Na ANS, as reclamações por NIP cresceram cerca de 40% entre 2020 e 2021 e mais 16% no ano seguinte, chegando a 376 mil em 2024. Em 2025, recuaram 13,5%, para cerca de 325 mil, e é justo registrar isso. A ANS atribui a queda à resolução mais rápida dos casos; especialistas, por sua vez, apontam que parte da insatisfação migrou para a plataforma Consumidor.gov, da Senacon, onde as queixas contra planos passaram de cerca de 31 mil para quase 35 mil no mesmo ano. O impacto sobre os idosos é visível: as NIPs sobre reajuste em contratos coletivos apresentadas por maiores de 60 anos passaram de 842, em 2021, para 1.238, em 2025, alta de 47%.
2. O lucro bilionário
Em 2025, o setor lucrou R$ 24,4 bilhões, o maior resultado da série histórica, em um ano de reajustes acima dos custos assistenciais.
A alta foi de 120,7% sobre 2024. A margem líquida chegou a 6,2% de uma receita de R$ 391,6 bilhões, e a rentabilidade sobre o patrimônio foi de 16,4%. Com os juros altos, as operadoras mantinham R$ 134,5 bilhões aplicados no mercado financeiro, que renderam R$ 14,7 bilhões no ano. Só as despesas assistenciais, de R$ 276,9 bilhões, superaram os R$ 215 bilhões executados pelo orçamento federal do SUS. É verdade que nem todas lucram: segundo a FenaSaúde, 264 operadoras fecharam no vermelho. Mas três grupos concentraram 49% de todo o lucro. E, mesmo com a queda de 12% no primeiro semestre de 2026, o setor ainda lucrou R$ 10,9 bilhões em seis meses.
3. A guerra das glosas: os hospitais também não são santos
No outro elo da cadeia, os hospitais denunciam glosas recordes. A Anahp registrou glosa inicial de 17% no primeiro trimestre de 2025, e R$ 5,8 bilhões retidos em 2024 entre 85 hospitais, 15,89% do que tinham a receber. Segundo a entidade, apenas cerca de 2% do total glosado se sustentou ao fim da análise. A FenaSaúde contesta e cita os dados da ANS, que apontariam glosa de 7,4%.
Os hospitais, porém, também não são santos: usam o paciente como moeda de barganha nessa disputa por preço e prazo. E quem fica no meio do fogo cruzado é sempre o mesmo.
4. Reajustes acima da inflação, e ainda sobra
Nos planos coletivos, que não têm teto da ANS, o reajuste médio foi de 14,13% em 2023, 13,18% em 2024, 10,76% em 2025 e 9,9% no início de 2026. É o menor em cinco anos, mas ainda é mais que o dobro do IPCA, de 3,81%. O plano individual, único com teto regulado, foi limitado a 5,11%, só que praticamente deixou de ser vendido. Resultado: o consumidor empurrado para o coletivo, inclusive por meio de MEI, fica sem proteção, enquanto o reajuste cobre o custo médico e ainda deixa margem recorde para a operadora.
5. A massificação desumanizada
Chego à pauta que dará o tom daqui para a frente: a massificação desumanizada dos serviços de saúde. Muitos setores entregaram o atendimento a gravações, a robôs e agora à inteligência artificial. Mas na saúde isso não pode ser aceito. O consumidor doente não pode ser obrigado a lutar contra uma gravação, uma URA ou um chatbot para obter a sua salvação.
A lei até prevê o contrário: o Decreto do SAC, que alcança as operadoras de planos, exige atendimento por humano por ao menos oito horas diárias. A lei existe; a vivência do paciente, muitas vezes, é outra. Foi preciso, aliás, que o próprio presidente da ANS viesse a público, em setembro, dizer que a inteligência artificial não pode decidir sozinha sobre negativas de plano de saúde. Se foi necessário dizer, é porque o risco já está na mesa.
Há ainda uma ironia cruel. A medicina avança com robótica, genômica e terapias de precisão, e isso é ótimo. As operadoras, porém, resistem a que esses procedimentos modernos entrem no Rol da ANS, e o lobby é pesado. A primeira cirurgia robótica de cobertura obrigatória, a prostatectomia, só foi incorporada em dezembro de 2025, com vigência desde abril de 2026, quando o SUS já contava com 40 plataformas robóticas para o mesmo procedimento. Para economizar, porém, as operadoras fazem de tudo com a tecnologia. Ela é bem-vinda quando corta custo e resistida quando amplia cobertura.
Não estamos mais diante da simples transformação do serviço em commodity. Estamos diante da transformação do próprio paciente em coisa: deixa de ser uma pessoa, com nome, história e dor, para virar um sinistro com CPF.
Mas gente não cabe em padrão. Pense na criança com autismo, cujo tratamento depende do olhar clínico sobre aquela criança, e não de um limite de sessões calculado por um algoritmo. Pense no paciente de câncer de pulmão cujo tumor carrega uma alteração genética específica: o painel que identificaria o melhor tratamento só agora foi submetido à consulta pública da ANS. Pense no idoso que, de madrugada, precisa de alguém capaz de entender que a urgência dele não cabe na fila do protocolo. Nesses casos, a atenção humana não é um luxo; é parte do próprio tratamento. Humanizar não é recusar a tecnologia; é garantir que a decisão final sobre a vida de uma pessoa tenha rosto e responsável.
E até você, advogado, prepare-se. Os departamentos jurídicos das operadoras demitiram os humanos que podiam, porque o tratamento dos processos será feito por IA. Quer dizer, nem no Judiciário o paciente obterá atendimento humanizado. Bom para quem adora cobrar multa por descumprimento. Péssimo para quem tem pressa no acesso à saúde.
Uma luta pela humanização da saúde
É por isso que o Portal JS entra, a partir de hoje, em uma nova fase. Vamos iniciar uma luta para preservar a humanização da saúde, e o leitor pode contar com o nosso compromisso: o embate começa, muito mais forte, hoje. Eu, Elano Figueiredo, também vou atuar em várias frentes para combater contratos ilegais, reajustes indevidos e negativas cruéis.
E chega de passar a mão na cabeça. Não se acredita mais no discursinho do “sistema sustentável”. Sustentável é o consumidor conseguir pagar o plano e ter um serviço digno, humanizado.




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