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O plano dos nossos filhos

  • há 2 dias
  • 8 min de leitura

A fuga dos jovens da CLT ameaça o equilíbrio atuarial da saúde suplementar — e o futuro do setor depende de uma resposta regulatória que ainda não chegou


Por Elano Figueiredo  |  Especialista em Saúde Suplementar  |  Leitura: ~6 minutos

 

Em uma matéria publicada pelo portal Âncora 1, o título é provocador: “Nova geração pode ficar sem plano de saúde e força criação de alternativas no Brasil”. A premissa é real. A conclusão, porém, é mais complexa — porque o problema vai muito além da falta de alternativas para jovens autônomos. O que está em jogo é a sustentabilidade de todo o sistema de saúde suplementar brasileiro, cujo equilíbrio depende, estruturalmente, de uma equação geracional que começa a se romper.


Então, vamos mais fundo: quem são esses jovens, quanto valem financeiramente para o setor, o que os modelos alternativos realmente oferecem — e quais são os riscos concretos de ignorar essa transformação?

 

I. O novo modelo de trabalho dos jovens — CLT não é mais a meta


A relação entre juventude e emprego formal está em ruptura silenciosa. Uma pesquisa do Centro de Estudos Sociedade, Universidade e Ciência (Sou_Ciência), da Unifesp, em parceria com o Instituto IDEIA, revela que 30% dos jovens entre 18 e 27 anos querem empreender, enquanto apenas 11% pretendem trabalhar com carteira assinada. São números que invertem a lógica que prevaleceu no Brasil por décadas.


Segundo o Sebrae, mais de 15 milhões de brasileiros trabalham por conta própria, e cerca de 14 milhões estão registrados como MEI — o Microempreendedor Individual. Esse contingente não para de crescer: em 2020, mais de 2,6 milhões de novas empresas foram abertas na categoria MEI, correspondendo a 56,7% de todos os negócios em funcionamento no país.

O jovem brasileiro de hoje não rejeita o trabalho. Ele rejeita a subordinação. E junto com a carteira assinada, abre mão — muitas vezes sem perceber — do único mecanismo que o conectava ao sistema de saúde privado.

Esse fenômeno não é apenas cultural. É também econômico: plataformas digitais de trabalho, a expansão do trabalho remoto e a crise de desemprego estrutural transformaram o MEI e o regime PJ em saídas viáveis — e, em muitos casos, desejadas — para uma geração que cresceu conectada e desconfiada das grandes corporações.

 

II. A propulsão dos planos de saúde pela CLT — e o problema da nova geração


A saúde suplementar brasileira foi construída sobre um tripé: o empregador paga (total ou parcialmente), o empregado contribui, e o Estado não precisa absorver essa demanda no SUS. Esse modelo funcionou bem enquanto o emprego formal era a norma.


Hoje, dos 53,3 milhões de brasileiros com plano de saúde, 73% estão vinculados a contratos empresariais — ou seja, dependem de um vínculo de emprego para ter acesso. Sem CLT, o jovem precisa buscar um plano individual ou por adesão, categorias que oferecem menos poder de barganha, reajustes maiores e, em alguns casos, nem sequer estão disponíveis nas regiões onde residem.


A alternativa mais comum para quem tem CNPJ — o plano MEI — existe desde 2018, quando a ANS permitiu que microempreendedores contratassem planos na modalidade empresarial. Operadoras como Amil, Notredame e Sami oferecem opções a partir de R$ 127 mensais nessa categoria. Mas mesmo esse acesso depende de formalização prévia e de pelo menos seis meses de CNPJ ativo — barreiras que excluem grande parte dos jovens em transição para a informalidade.

O modelo foi construído para o trabalhador do século XX. Os jovens do século XXI estão redesenhando suas trajetórias profissionais — e o sistema de saúde não foi junto.

 

III. O mito da "solução digital" — por que cartões de desconto não são substitutos de planos


A matéria do Âncora 1 menciona "plataformas digitais com modelos de financiamento coletivo para despesas de saúde" como alternativas emergentes. A descrição é imprecisa — e essa imprecisão importa.


O que existe no Brasil são, essencialmente, dois tipos de produto: os cartões de desconto e as healthtechs reguladas como operadoras. São mundos completamente diferentes do ponto de vista assistencial e regulatório.


Os cartões de desconto — Cartão de TODOS, Dr. Consulta, Hero Teleconsulta — oferecem acesso a consultas e exames a preços reduzidos mediante uma mensalidade que pode chegar a R$ 30,90 por família. Eles atendem entre 50 e 60 milhões de brasileiros, segundo estimativas da própria ANS e do STJ, e são, em sua maioria, utilizados pela classe C que não tem plano de saúde. Não são ilegais. Mas não são planos. Não cobrem internações. Não cobrem urgências. Não cobrem procedimentos de alta complexidade.


O Superior Tribunal de Justiça (STJ), em decisão transitada em julgado, determinou que a ANS regulamente esses produtos. A Agência chegou a propor um "sandbox regulatório" para testar planos simplificados de consultas e exames por até 24 meses — mas a proposta foi suspensa após críticas do Idec e do próprio setor, que apontou ausência de Análise de Impacto Regulatório e risco de redução da cobertura mínima.

Oferecer a um jovem autônomo um cartão de desconto como substituto de plano de saúde é como oferecer um guarda-chuva furado em dia de temporal: resolve o começo, mas não protege do que realmente importa.

As healthtechs como Alice e Sami são operadoras reguladas pela ANS, com modelo digital e foco em prevenção. Não são "rateio de custos" — são planos de saúde convencionais com interface moderna. Custos similares, obrigações similares, cobertura similar.

 

IV. O triângulo do desequilíbrio atuarial — TEA, envelhecimento e fuga dos jovens


Aqui reside o problema mais grave — e o menos discutido pela imprensa generalista.


A saúde suplementar funciona como um pacto geracional: os mais jovens, que utilizam pouco o plano, financiam, em parte, o custo dos mais velhos, que utilizam muito. Esse mecanismo — chamado de mutualismo intergeracional — é o mesmo que sustenta a Previdência Social. E, como na Previdência, ele só funciona se a base jovem for suficientemente grande e ativa.


Hoje, o setor enfrenta simultaneamente três vetores de pressão que corroem esse equilíbrio:

Primeiro, a judicialização e os custos do TEA. Após as decisões do STJ (Temas 1.082 e 1.047), as operadoras são obrigadas a cobrir ABA, fonoaudiologia, terapia ocupacional, acompanhante terapêutico e atendimento em contextos naturalísticos para crianças com Transtorno do Espectro Autista. O custo por beneficiário com TEA pode variar de R$ 3.000 a R$ 8.000 mensais — e o número de diagnósticos vem crescendo em ritmo acelerado, acompanhado de bloqueios judiciais via SISBAJUD e ações coletivas que pressionam operadoras de todos os portes.


Segundo, o envelhecimento da carteira. Os dados da ANS mostram que as faixas etárias de maior crescimento nos planos de assistência médica em 2024 foram justamente a de 45 a 49 anos e a de 50 a 54 anos. A faixa acima de 59 anos pode consumir até 350% do valor que paga em mensalidades. E a regra da ANS limita o teto dessa faixa em seis vezes o valor da faixa inicial — o que comprime a capacidade das operadoras de recompor a equação por preço.


Terceiro, a saída dos jovens. A faixa de 18 a 29 anos apresenta sinistralidade de apenas 20% a 30% do prêmio pago — ou seja, é a faixa mais eficiente do ponto de vista atuarial. Cada jovem que migra para um cartão de desconto ou simplesmente fica sem cobertura retira do pool de riscos um pagador que custava pouco e contribuía muito.

O sistema está perdendo simultaneamente os que mais contribuem e incorporando os que mais custam. Não é uma crise futura. É uma pressão presente — já visível nos reajustes e na expansão da coparticipação.

V. O impacto financeiro estimado da saída dos jovens — em números


Quantificar essa perda é essencial para transformar o debate em argumento. Com base nos dados públicos da ANS e nos padrões atuariais do mercado, é possível estimar:


A faixa de 18 a 29 anos representa, pela distribuição etária do IBGE combinada com a taxa de cobertura dos planos (~26% da população), aproximadamente 14% a 16% da base total de beneficiários — ou seja, entre 7,5 e 8,5 milhões de pessoas. Utilizando um ticket médio conservador de R$ 300 mensais em planos coletivos empresariais, essa faixa gera cerca de R$ 28,8 bilhões ao ano em receitas de prêmios. Isso representa entre 10% e 12% da receita total do setor.


Mas o número mais relevante não é a receita — é o subsídio líquido. Como essa faixa utiliza apenas 20% a 30% do que paga, ela gera um superávit atuarial que financia, em parte, os custos das faixas deficitárias. Cada ponto percentual de redução na participação jovem equivale a uma pressão adicional de reajuste sobre todos os demais beneficiários.

 

Dimensão

Dado / Estimativa

Fonte

Base total de beneficiários

53,3 milhões (out/2025)

ANS

Vinculados a contratos empresariais

73% (~39 milhões)

ANS

Estimativa faixa 18–29 anos na base

~8 milhões (14–16%)

Estimativa IBGE/ANS

Receita estimada dessa faixa/ano

~R$ 28,8 bilhões

Cálculo com ticket médio R$ 300/mês

Sinistralidade da faixa jovem

~20–30% do prêmio pago

Dados atuariais de mercado

Cartões de desconto em uso no Brasil

~50–60 milhões de usuários

ANS/STJ (2024)

Reajuste coletivo médio em 2025

11,06%

Acrisure Brasil

Crescimento da coparticipação (2024→25)

+14 pp (64% → 78% das empresas)

Pipo Saúde

Tabela 1 — Síntese dos dados estruturais do setor | Fontes: ANS, IBGE, Acrisure Brasil, Pipo Saúde


O sinal mais concreto desse desequilíbrio já está no mercado: o reajuste médio de contratos coletivos sempre está muito superior ao teto autorizado pela ANS para planos individuais. E a coparticipação — mecanismo que transfere parte do custo ao usuário — avançou 14 pontos percentuais em um único ano (2025), chegando a 78% dos contratos empresariais.

 

VI. O "health cost sharing ministry" — e por que não existe no Brasil


Nos Estados Unidos e em alguns países europeus, existe um modelo chamado health cost sharing ministry ou health sharing plan: grupos de indivíduos — frequentemente de base religiosa ou comunitária — que contribuem mensalmente para um fundo mútuo que cobre as despesas médicas dos membros. Não é seguro. Não é plano de saúde. É uma forma de solidariedade financeira organizada, com regras próprias de elegibilidade e exclusão.


No Brasil, esse modelo simplesmente não tem espaço regulatório. Qualquer estrutura que assuma o risco de cobertura assistencial — ou seja, que prometa pagar despesas médicas de terceiros — cai automaticamente sob a competência da Lei n. 9.656/1998 e da regulação da ANS. Operar fora dessa moldura é crime. Não existe, portanto, uma "plataforma de rateio de custos de saúde" funcionando legalmente no Brasil com o modelo descrito na matéria.


O que há são: cartões de desconto (sem cobertura real, sem regulação efetiva, com STJ mandando a ANS agir); planos de saúde tradicionais (com cobertura obrigatória, regulados, mas caros para quem não tem CLT); e a lacuna — enorme, crescente e ainda sem resposta — entre esses dois extremos.


A ANS tentou criar um sandbox regulatório para planos simplificados de consultas e exames. A proposta foi suspensa. O problema não foi suspenso junto.


O que o setor — e os jovens — precisam não é de um modelo americano transplantado, mas de inovação regulatória responsável: produtos com cobertura mínima real, precificação acessível para autônomos, mecanismos de portabilidade entre vínculos formais e informais, e um debate honesto sobre o que o pacto intergeracional exige de cada geração.

 

Conclusão — A ANS diante de uma equação que o mercado não resolve sozinho


A discussão aqui envolve o plano de saúde que a nova geração pode não ter, mas também o planejamento que o setor ainda não fez para enfrentar essa realidade.


A ANS enfrenta desafios que excedem a regulação tradicional. O modelo de saúde suplementar foi construído para uma realidade de emprego formal estável, pirâmide etária jovem e diagnósticos de saúde previsíveis. Nenhum desses pressupostos se mantém intacto.


A dinâmica das relações de trabalho mudou — e levou consigo a base de financiamento do sistema. O envelhecimento da carteira aumenta o custo médio per capita. A judicialização do TEA cria passivos crescentes e imprevisíveis. E os jovens, que seriam o contrapeso atuarial de tudo isso, estão migrando para um ecossistema de cartões de desconto que os deixa desprotegidos diante de qualquer evento de saúde de média ou alta complexidade.


A Agência precisará equalizar essa equação com instrumentos que hoje não existem: regulação dos cartões de desconto com transparência real, produtos simplificados que tenham cobertura mínima genuína, mecanismos de inclusão para autônomos e MEIs sem as barreiras atuais, e uma política ativa de atração da geração jovem para o sistema — não como favor, mas como necessidade estrutural.


Porque quando os filhos saírem do sistema, quem vai pagar o plano dos pais?

 

Referência base: Âncora 1 — "Nova geração pode ficar sem plano de saúde e força criação de alternativas no Brasil" (05/04/2026)

Demais dados: ANS (SIB/2025), IBGE/DATASUS, Acrisure Brasil, Pipo Saúde, STJ (AgInt no AREsp 2.183.704/SP), Futuro da Saúde, Infomoney, Agência Brasil.

 
 
 

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