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ANS quer aprimorar governança da Unimed

  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

Proposta de audiência pública sobre governança das cooperativas foi retirada de pauta pelo presidente da Agência — mas o sinal regulatório não pode ser ignorado


Na última reunião da diretoria colegiada da ANS, um item chamou atenção — não pelo que foi deliberado, mas pelo que não foi.


A Diretoria Econômico-Financeira da Agência, a DIOPE, trouxe como extra-pauta uma proposta de convocação de audiência pública sobre o aprimoramento da supervisão regulatória da governança corporativa no Sistema Unimed. O item foi retirado de pauta por pedido de vista do presidente da ANS.


Encerrado o assunto? Longe disso.


O sinal que veio de dentro


Esse tema não surgiu por acaso nem foi inserido por um técnico entusiasta em dia de inspiração. O diretor Jorge Aquino já havia sinalizado a necessidade de discutir a governança das Unimeds em fóruns setoriais anteriores — inclusive na CAMSS, instância de diálogo entre regulador e setor. Agora, o assunto chegou ao colegiado como proposta formal, vinda exatamente da diretoria responsável por monitorar a saúde econômico-financeira das operadoras.


Quando a área que acompanha os balanços das operadoras propõe debater publicamente a governança de um sistema cooperativo, isso não é protocolo. É diagnóstico.


O Sistema Unimed e seus pontos cegos


O cooperativismo médico tem virtudes genuínas: autonomia dos médicos cooperados, enraizamento regional, missão centrada na saúde e não apenas no lucro. O Sistema Unimed é, historicamente, uma das maiores forças da saúde suplementar brasileira.


Mas o ambiente atual exige qualidades que a governança cooperativista clássica nem sempre oferece com facilidade: velocidade de decisão, profissionalização da gestão executiva, transparência contábil compatível com a complexidade dos contratos assistenciais e capacidade de resposta a crises de sinistralidade.


Algumas cooperativas do sistema acumulam dificuldades operacionais relevantes. Os últimos anos trouxeram intervenções da ANS, descredenciamentos, fusões negociadas sob pressão e reajustes que testaram os limites da tolerância dos beneficiários. Nesse contexto, uma proposta de audiência pública sobre governança não é agressão ao modelo cooperativo — é reconhecimento de que o modelo precisa evoluir.


A retirada de pauta e o que ela revela


O presidente da ANS é um cargo com perfil político. Isso não é crítica — é uma constatação sobre a natureza da função. O dirigente máximo de uma agência reguladora com impacto sobre 53 milhões de beneficiários e sobre um setor que movimenta centenas de bilhões de reais precisa calibrar o momento e a forma de cada sinalização pública.


Retirar o item de pauta por pedido de vista é um gesto que compra tempo — e que, quase sempre, antecede uma deliberação mais cuidadosa, não o arquivamento silencioso.


O setor cooperativo tem capilaridade política, representação nacional e capacidade de mobilização. Uma audiência pública sobre governança das Unimeds é um movimento que gera reação. Faz sentido que o regulador construa o caminho com cuidado.


Mas o fato de o tema ter chegado ao colegiado — formalmente, com autoria identificada, como extra-pauta de uma diretoria técnica — já é, em si, um dado relevante. Sinais regulatórios raramente são gratuitos.


O que acompanhar


Nos próximos meses, vale monitorar se o tema retorna à pauta da diretoria colegiada, se a ANS abre algum processo de consulta setorial sobre governança cooperativa, e como o Sistema Unimed responde — seja com iniciativas próprias de aprimoramento, seja com articulação política para conter o avanço regulatório.


O que não faz sentido é tratar a retirada de pauta como fim de conversa.


Onde tem fumaça, tem fogo. E a fumaça, aqui, veio de dentro da própria Agência.

 
 
 

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