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A estagnação dos planos

há 11 minutos
3 min de leitura

Dez anos de dados mostram que a adesão aos planos acompanha o emprego formal. Agora que a geração de vagas perde o fôlego, o setor estagna, e o retrato oficial esconde isso.


Na quinta-feira, a ANS divulgou os números de setembro: 53.108.097 vínculos em planos de assistência médica. Em relação a agosto, o crescimento foi de 0,02%. Em 12 meses, 0,83%. A agência usa a palavra "estabilidade". Prefiro chamar pelo nome: estagnação.


E não é um acaso estatístico. Nada nesse mercado é mais previsível do que isto: o plano de saúde acompanha a carteira de trabalho. Basta olhar o que acontece quando o emprego formal para de crescer.


A regra que o setor conhece de cor


Quase três quartos dos vínculos, 38,99 milhões dos 53,1 milhões, são de planos coletivos empresariais. Quando a empresa contrata, o plano cresce; quando demite, ele encolhe. Não sou eu quem diz: o Instituto de Estudos de Saúde Suplementar, o IESS, fala em correlação direta entre emprego formal e cobertura. Entre outubro de 2024 e outubro de 2025, segundo o instituto, o estoque de celetistas subiu 2,8% e os beneficiários de planos empresariais, 4,4%.


Dez anos, a mesma curva




A curva não é perfeita, e é preciso dizer isso. Em 2020, a pandemia elevou a procura por planos mesmo com perda de vagas. E há uma defasagem de alguns trimestres entre o emprego e a adesão, o que ajuda a explicar por que 2025 ainda fechou com alta de 1,9% mesmo com a geração de vagas já em queda de quase 24%. A conta chega depois. E em 2026, ela chegou.


O retrato oficial e o que ele esconde


O governo gosta de exibir a taxa de desemprego, 5,6%, a menor da série do IBGE. É um número real. Mas é um retrato seletivo. O mesmo Ministério do Trabalho informa que setembro teve a menor geração de vagas formais para o mês desde 2020, 121 mil, 43,5% menos que em setembro de 2025. Que, de janeiro a setembro, foram abertas 1,25 milhão de vagas, 27,9% menos que no ano passado. E que 2025 já havia sido o pior ano desde 2020.


A economia não encolheu: o PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre e 2,0% em 12 meses. Mas o motor perdeu força, com juros em dois dígitos (a Selic estava em 14% em agosto), famílias endividadas e, no primeiro pregão depois da eleição, um mercado que reagiu com o dólar acima de R$ 5,50 e a Bolsa em circuit breaker. Governar olhando só a taxa de desemprego é como medir a saúde do paciente só pela temperatura.


O desemprego baixo é a manchete. A geração de vagas formais, que é o que sustenta o plano de saúde, é a letra miúda.

 

O que as empresas fazem quando a conta aperta


Elas ajustam. A coparticipação virou regra: entre 2020 e 2024, segundo o IESS, os contratos empresariais com coparticipação saltaram de 34% para 46% do total, e os beneficiários nesses planos foram de 56,5% para 61,7%. Em 2026, reportagem da Agência O Globo mostra empresas pequenas trocando o plano por telemedicina e cartões de desconto, e empresas maiores tentando conter o custo. A ANS registra que, em 12 meses, quase um terço dos vínculos foi substituído, e que os planos empresariais, que cresciam 4,4% um ano atrás, avançam agora 1,9%. Os individuais caem quase 3%.


O trabalhador paga. Paga mais para usar o plano, aceita rede menor, descobre que o benefício virou "desconto" ou fica sem nada. E paga ainda por um reajuste que, nos contratos coletivos, não tem teto.


O contraponto, e por que ele não basta


O governo e seus defensores dirão que o desemprego está na mínima histórica, que o PIB cresceu 2,3% em 2025, que a Selic já começou a cair e que a desaceleração é o preço de domar a inflação. É verdade. Mas esse argumento não responde à pergunta de quem tem plano de saúde: quando a conta do ajuste chega, quem paga é o beneficiário, e não o gestor da política econômica.


Se a reação do mercado após a eleição se confirmar como uma piora de câmbio, juros e crédito, o próximo capítulo é conhecido. Menos contratação, mais demissão, mais coparticipação, menos plano. O termômetro dos planos de saúde é o primeiro a medir, e o último a ser lido.

 

Quando o emprego formal para de crescer, o plano de saúde é o primeiro a avisar. O governo pode não querer ouvir, mas o consumidor já ouviu.


Fontes: ANS (números de beneficiários, set./2026 e dez./2025); IESS (NAB 105, 112 e 122; TD 118); Caged/MTE; IBGE; reportagens da Agência O Globo, Metrópoles e Exame. Dados até 08/11/2026.

 
 
 

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