top of page

As desigualdades nas cataratas

  • 25 de ago. de 2025
  • 5 min de leitura

Planos privados fazem 73% mais cirurgias de catarata que o SUS: um sintoma das desigualdades que a saúde brasileira insiste em não resolver


A reportagem de Mônica Bergamo na Folha, baseada em estudo que mostra que beneficiários de planos de saúde realizam 73% mais cirurgias de catarata que usuários do SUS, acende um farol sobre um problema que é ao mesmo tempo técnico e político. Não se trata apenas de números: trata-se de quem recupera autonomia, quem retorna ao trabalho, quem deseja e consegue continuar vendo seus netos. No Portal JS, isso vira pauta pública — porque saúde é política, gestão e escolhas sociais.


O que o dado revela, em poucas palavras


Catarata é uma das principais causas de perda visual evitável. A cirurgia é de baixo risco, de alto impacto individual e social, e tem resultados previsíveis. Logo, uma diferença tão grande entre redes pública e privada não pode ser explicada apenas por variáveis clínicas: sinaliza problemas de acesso, organização e prioridades do sistema de saúde brasileiro.


Por que isso importa


- Recuperação rápida: pacientes operados voltam a executar atividades diárias, a trabalhar e a circular com autonomia. A cirurgia tem efeito multiplicador na qualidade de vida.


- Prevenção de maior dependência: a demora aumenta risco de quedas, isolamento social e necessidade de cuidados assistenciais.


- Desigualdade explicita: quando quem tem plano de saúde obtém intervenção com mais facilidade, reforça-se um ciclo de exclusão social — a saúde deixa de ser igualadora.


Principais causas por trás da diferença


1) Capacidade e distribuição da oferta: há mais leitos, centros e profissionais voltados ao atendimento conveniado, muitas vezes concentrados em grandes centros urbanos. O SUS, por sua arquitetura federativa e por limitações orçamentárias, enfrenta gargalos de infraestrutura e distribuição regional desigual.


2) Fluxos e agilidade: plano privado tende a reduzir etapas — consultas, exames pré-operatórios e agendamento cirúrgico são mais rápidos. No SUS, a necessidade de regulação, encaminhamento e os limites orçamentários geram listas de espera longas.


3) Incentivos e contratos: a remuneração e a forma de contratação na rede privada favorecem produção; no SUS, contratos, limitações orçamentárias e processos burocráticos reduzem a velocidade de resposta.


4) Atenção primária fragilizada: diagnóstico precoce depende de acesso primário. Sem triagem ativa, muitos casos só chegam ao ponto cirúrgico quando já há piora funcional.


5) Desigualdade socioeconômica: beneficiários de planos tendem a ter maior escolaridade, histórico de cuidados preventivos e condições que levam ao diagnóstico precoce.


O que os números não dizem (e precisamos saber)


- Qualidade e seguimento: mais cirurgias não significam automaticamente melhores desfechos; é preciso avaliar complicações, revisões e satisfação.


- Critérios de indicação: existe a hipótese de que redes privadas operem com limiar diferente para indicação, realizando cirurgias em estágios menos avançados (o que pode ser positivo) ou priorizando casos mais lucrativos (o que seria problemático).


- Regionalidade: médias nacionais escondem variações fortes entre estados e municípios. Em alguns locais, o SUS pode estar mais bem estruturado; em outros, praticamente ausente.


Consequências sociais e econômicas


A demora em procedimentos como a cirurgia de catarata produz custos invisíveis: aumento de afastamentos do trabalho, sobrecarga de cuidadores familiares, maior demanda por serviços de assistência social e uma perda de capital humano que incide sobre comunidades inteiras. Uma política que não trate isso como prioridade está abrindo mão de ganhos sociais e econômicos claros.


O que precisa ser feito — medidas práticas e factíveis


1) Mapear oferta e demanda por região: transparência é essencial. Estados e municípios precisam publicar, trimestralmente, dados sobre listas de espera, número de cirurgias por 10 mil habitantes e tempos médios de espera.


2) Centros cirúrgicos regionais especializados: organizar a produção de cirurgias eletivas em redes regionalizadas, com itinerários clínicos definidos, pode reduzir filas e aumentar eficiência.


3) Fortalecer atenção primária: inclusão de rastreamento oftalmológico em programas de atenção básica, com protocolos de encaminhamento claros, garante diagnóstico precoce.


4) Parcerias público-privadas pactuadas por resultados: contratos que remunerem por resultado e qualidade (e não apenas por volume) podem ampliar oferta sem abrir mão da equidade. Mas devem trazer cláusulas de seleção transparente de pacientes e auditagem pública.


5) Mutirões monitorados por indicadores de qualidade: mutirões são válidos se acompanhados de metas de seguimento e de indicadores (complicações, retorno visual, satisfação).


6) Capacitação e infraestrutura: investir em oftalmologia nos hospitais públicos, com equipamentos, insumos e formação de equipes, é investimento com retorno social.


7) Regulamentação e fiscalização dos planos: a ANS e órgãos de defesa do consumidor têm papel em garantir que planos cumpram prazos e normas; tambem é preciso evitar práticas que privilegiem casos rentáveis em detrimento de complexos.


8) Engajamento da sociedade civil: associações de pacientes e conselhos de saúde devem participar do monitoramento e do estabelecimento de prioridades locais.


Riscos e armadilhas das soluções fáceis


- Produzir muito sem fiscalizar qualidade pode gerar procedimentos desnecessários ou complicações evitáveis.


- Parcerias mal formuladas podem ampliar desigualdades se prestadores privados “selecionarem” casos simples e deixarem o SUS com os mais complexos.


- Programas isolados, sem integração entre níveis de governo, repetem as mesmas falhas de implementação.


Uma agenda mínima para gestores públicos


- Publicar balanços regionais de oferta x demanda e indicadores de resultado.


- Padronizar critérios clínicos de prioridade, com auditoria independente.


- Disponibilizar recursos condicionados ao alcance de metas de acesso e qualidade.


- Criar linhas de financiamento para centros regionais e para atualização tecnológica do SUS na área oftalmológica.


- Estimular estratégias de telessaúde para triagem e pré-avaliação, reduzindo consultas presenciais desnecessárias.


Por que o Portal JS se importa (e você também deveria)


Relatos locais — de pacientes que aguardaram meses ou anos, de profissionais que vêem filas se acumularem, de municípios que lotam UTIs e deixam eletivas de lado — são parte do diagnóstico. O Portal JS tem compromisso com a informação que impulsiona mudança: revelar onde o sistema falha é passo necessário para exigir soluções. Saúde ocular é um exemplo claro de problema com solução conhecida e custo-benefício favorável. Não cuidar disso é aceitar perda evitável de autonomia e vidas menos produtivas.


Convite ao leitor


Se você passou por essa experiência, relate nos comentários: quanto tempo esperou por uma cirurgia de catarata? Foi pelo SUS ou por plano privado? Esses depoimentos alimentam denúncia pública e ajudam a construir pressão por políticas locais. Gestores, profissionais e ativistas: levem esse tema para suas agendas — auditar e alinhar oferta e demanda é medida de justiça social.


Conclusão


A diferença de 73% nas cirurgias de catarata entre rede privada e SUS é um sintoma de um problema maior: a persistência de desigualdades no acesso a serviços de alto impacto social. Resolver isso exige articulação técnica (organização da oferta, capacitação, protocolos), política (recursos, metas, regulação) e cidadã (pressão, transparência, participação). No curto prazo, ações bem desenhadas podem reduzir filas e evitar perda de visão evitável; no médio prazo, fortalecem o SUS como instrumento efetivo de equidade. No Portal JS, seguimos cobrando respostas concretas — porque ver não deveria ser privilégio.

 
 
 

Comentários


bottom of page