O modelo Hapvida
- 28 de set. de 2025
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Como a empresa do Ceará, estando fora do berço dos planos de saúde (RJ-SP-PR), conseguiu se tornar a maior da América Latina
A Hapvida é criticada por muitos e reconhecida por alguns. Mas os resultados da operadora falam por si. Com um forte crescimento comercial, após comprar o grupo Santa Clara em Pernambuco, iniciou uma trajetória de aquisição de várias outras congêneres, até chegar ao São Francisco Saúde, de Ribeirão Preto. A partir da incorporação deste Grupo, atingiu a musculatura necessária para negociar uma fusão com a Intermédica Notredame, numa posição em que teria o controle da sociedade.
Mas como se deu essa história? Quais os diferenciais que a levaram a essa trajetória? Vamos tentar indicar alguns, que conseguimos enxergar com clareza, ao longo dos últimos 25 anos observando a operadora.
- Origem e aprendizado
A grande maioria deve não saber, mas a Hapvida possivelmente só existe por força de uma conduta da Unimed Fortaleza. Irônico isso, não é?
HAP significa Hospital Antônio Prudente. Foi o empreendimento original do Fundador, Candido Pinheiro. Um hospital de referência em Fortaleza, cujo maior cliente era a Unimed.
Por conta de uma divergência política, pelos idos de 1993, o Presidente da Unimed Fortaleza descredenciou o hospital, impondo-lhe um desafio enorme, que seria sobreviver sem o seu maior cliente. A providência necessária foi construir 2 clínicas de bairro e iniciar seu próprio plano de saúde.
Então, a Hapvida nasce de uma crise de dependência, sabendo que sua independência seria essencial na jornada; aprendizado importante para se colocar no mercado como um sistema de saúde – sendo plano, rede, hospital e laboratório ao mesmo tempo. Tudo reunido sob o controle societário de um dono – gestão fortemente concentrada.
- Foco e tendência
Ainda no início das atividades da operadora, mais precisamente no start dos anos 2000, os gestores perceberam que a empresa deveria ter um foco, atuar naquilo que sabia fazer muito bem: a rede própria, verticalizada.
A vocação apontava também para o público mais carente. Tudo combinava perfeitamente: o controle da rede vertical permitia um custo menor, que autorizava preços mais baratos e atingia os clientes dessa faixa social.
Com o tempo, as empresas de diferentes setores, que pretendiam ou eram obrigadas (por convenção dos trabalhadores) a oferecer planos de saúde para seus empregados, passaram a entender que o preço praticado pela Hapvida seria o melhor custo x benefício. O modelo explodiu na preferência dos empresários.
Além disso, a operadoras com rede credenciada passaram a enfrentar um nível de fraudes e desperdícios insuportável. A saúde suplementar acordou para a inviabilidade do modelo remuneratório baseado no fee for service, da rede aberta. E quem já estava no formato certo há décadas?
A Hapvida se tornou pioneira em várias coisas. Controle biométrico de utilização, sistema integrado de prontuário e de autorização das prescrições, sistema assistencial cíclico e completo - na sua maior parte independente de outros prestadores.
- Respeitabilidade
Aquilo que era uma corriqueira piada nas mesas dos grandes executivos da saúde, o plano popular verticalizado, passou a ser respeitado a partir de 2014. O próprio visionário Edson Bueno, fundador da Amil, rendeu-se ao modelo e iniciou projeto nesse sentido em Guarulhos. Infelizmente não teve tempo de terminar a experiência.
Fato é que, com cerca de 62% do controle da nova Hapvida Notredame Intermédica e quase 16 milhões de assistidos, os player e as autoridades da saúde passaram a enxergar essa gigante de uma outra forma, com respeito. Ao invés de criticar o desenho, passaram a querer entender como a operadora consegue manter uma sinistralidade de 70%, enquanto a média do mercado é 80%.
Os números impuseram esse respeito.
- Críticas e insatisfações
O fundador da Hapvida sempre deixou muito claro: o dinheiro que recebo é do cliente, funcionamos como uma espécie de poupança, que guarda os valores de todos para garantir a saúde dos que ficarem doentes.
É assim e por isso que os Pinheiros exigem da sua equipe máxima responsabilidade no manuseio dos recursos que são do cliente. Autorizar algo que não está no contrato constitui uma traição ao beneficiário que confiou sua mensalidade ao plano.
Então, eles querem que o consumidor entenda bem que, ao contratar a Hapvida, terá rigorosamente o que está no seu contrato e na lei; nem mais e nem menos.
Esse rigor deixa muita gente insatisfeita. As políticas sociais estimulam os pacientes a imaginarem que as operadoras são o SUS; que têm obrigação entregar os tratamentos que estão e que não estão na contratação, no rol da ANS. Isso é um problema para a Hapvida, porque ela nunca prometeu e nem alimentou esse sonho social.
Então, quem quiser aderir a um plano deles e seguir as regras, ser atendido na rede referencial, cumprir as carências, preencher a declaração de saúde bonitinha, tem boas chances de fica muito satisfeito com os serviços, porque são baratos e efetivos. Do contrário, vai reclamar.
- Leitura do mercado financeiro
Os analistas de mercado têm premissas de observação diferentes, com base na maximização dos resultados das ações. Mas esse é o papel deles mesmo.
Todavia, espremer uma operadora a dar mais resultado do que uma sinistralidade de 70% é pressionar o mal atendimento. Na saúde, isso nem sempre faz bem à sociedade.
Então, o desafio atual da Hapvida é esse... equilibrar a pressão dos seus investidores, mantendo uma assistência digna, ao que sempre se propôs o Dr. Candido Pinheiro.
Boa sorte na missão!




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