Enquanto pacientes morrem...
- 17 de set. de 2025
- 3 min de leitura

FERJ com atendimento precarizado, Unimeds colapsando, reajustes limitando o acesso à saúde e, enquanto tudo isso acontece, Vadih Damous ensina aos servidores da ANS como pronunciar corretamente seu nome
Deu o que falar um vídeo, circulando nas redes sociais, em que o novo presidente da Agência reguladora dos planos de saúde ensina sua equipe a pronunciar corretamente seu nome. Tivemos informação que o tutorial, inclusive, está na INTRANS - a intranet da ANS.
O episódio expõe uma concentração simbólica com a forma, quando a substância do problema exige urgência. Enquanto se gasta tempo com questões supérfluas, milhões de beneficiários do sistema privado de saúde continuam à margem de soluções técnicas que a agência deveria priorizar.
A ANS não é um órgão ornamental. É a agência reguladora que, mais do que fiscalizar planos e operadoras, traduz diretrizes de política pública para medidas técnicas que impactam diretamente a vida dos usuários. Sua atuação interfere em preços, cobertura, regulação de contratos, fiscalização de práticas médicas e, em última instância, no acesso a serviços essenciais. A escolha de seu presidente, portanto, não é neutra; exige alguém com conhecimento aprofundado das dinâmicas do setor, sensibilidade clínica e gestão orientada por evidências. Quando a ocupação desse cargo se dá por critérios eminentemente políticos - sem considerar currículos técnicos e vivência no campo da saúde -, a agência perde capacidade de ouvir e responder às reais necessidades dos pacientes.
O vídeo, além do desconforto que possa provocar em quem imagina prioridades, funciona como metáfora. Ensinar pronúncias é trabalho de cerimonial; regular um mercado que movimenta bilhões e condiciona tratamentos de vida ou morte é tarefa para técnicos. A falta de familiaridade com as rotinas hospitalares, com as nuances das cláusulas contratuais entre planos e prestadores, com indicadores de qualidade e risco, evidencia-se em uma falta de sensibilidade inadmissível.
O timing é crítico. O país enfrenta desafios estruturais na saúde suplementar, tais como envelhecimento da população, necessidade de protocolos para terapias, discussão sobre modelos de reajustes, cancelamentos indevidos e diversas operadoras que não entregam o que prometem aos seus clientes, entre tantas que estão quebrando.
Mais do que episódios isolados, estamos diante de um padrão que tem se repetido em diversas áreas do setor público: a substituição da competência técnica pela lógica do apadrinhamento político. Em regulamentação de saúde, onde a relação entre custo, tecnologia e vida é particularmente sensível, esse erro custa muito caro. Nomeações sem lastro técnico desfavorecem a interlocução com sociedades científicas, hospitais, operadoras e entes federados. Além disso, criam um ambiente de incerteza normativa que desestimula investimentos em qualidade e inovação - afinal, normas inconsistentes elevam o risco regulatório.
A sensibilidade para o setor de saúde se traduz na capacidade de priorizar aquilo que salva vidas e reduz danos. Quando essa sensibilidade falta, a consequência é a banalização de procedimentos que deveriam ser tratados com a gravidade que merecem.
O custo político de não nomear técnicos vai além do desgaste institucional. Ele se converte em perda de legitimidade da agência, aumento de litígios judiciais, insatisfação de beneficiários e, na ponta, piora nos indicadores de saúde.
Chega-se, assim, à conclusão inevitável: o governo paga um preço alto ao privilegiar critérios políticos na indicação da direção da ANS em detrimento de competências técnicas. Esse preço é pago duas vezes - primeiro na perda de eficiência e capacidade regulatória da agência; depois, em impacto direto sobre pacientes que, esperançosamente, acreditam que instituições públicas protegerão seu direito à saúde. Substituir técnica por afinidade política transforma gestos simbólicos em síntese de prioridades equivocadas. Enquanto se discute pronúncias e protocolos de imagem, regulamentos esperam por atualização, pacientes aguardam por autorizações e o tempo, implacável, decide contra os mais vulneráveis.
Se há algo que a sociedade precisa reivindicar com urgência é autonomia técnica e critérios profissionais nas escolhas dos que comandam órgãos reguladores. Nomeações de alto impacto devem ser pautadas por competência, diálogo com especialistas e compromisso com a proteção do usuário. Tudo o mais - inclusive vídeos frívolos - soa como distração quando o que está em jogo é a saúde de quem não pode esperar.




Comentários